Duas instalações de Helio Rodrigues com os olhares infantojuvenis sobre uma cidade partida em exibição na Cidade das Artes

Foto divulgação

Ação cultural IDENTIDADE e DIFERENÇA reúne obras de crianças e adolescentes da comunidade do Jacarezinho

Em meio à violência que assola diariamente o Rio de Janeiro, duas instalações revelam como a arte pode ser (e é!) um caminho eficaz para transformar padrões. Enquanto uma expõe o olhar das crianças e adolescentes que vivem na violenta comunidade do Jacarezinho, a outra apresenta a solução das conversas entre dois grupos divididos socialmente na mesma cidade. De 16 de setembro a 26 de novembro, a Cidade das Artes será palco da ação cultural intitulada Identidade e Diferença, que reúne as mostras interativas No Espaço Entre Nós e O Muro, cujos coautores são os próprios jovens em parceria com o escultor e arte-educador Helio Rodrigues.

Desde 2006, o autor desenvolve um trabalho de artes visuais com crianças e adolescentes da comunidade do Jacarezinho, considerada uma das zonas mais violentas do Rio, que estampam diariamente os noticiários. É de Helio também a ideia de reunir as duas obras em um mesmo espaço a fim de se pensar a arte como promotora da paz e de ampliar a discussão sobre a inclusão social de jovens da favela na sociedade. Acontecerão também oficinas de arte, palestras e outras atividades durante os mais de 60 dias de exposição (agenda abaixo).

A ação é uma iniciativa do Instituto de Arte Educação, em parceria com a Cidade das Artes e Arte Ação Brasil. Como defende Helio Rodrigues:

A paz é parceira da tolerância, e é no conflito entre as diferenças que ela deixa de existir. Mas as diferenças também são alimentos da arte. A contribuição para a paz está diretamente ligada a dois aspectos: Identidade e Diferença! E a arte se torna fundamental, porque constrói identidades e traz o diverso para o espaço de valor.

NO ESPAÇO ENTRE NÓS: proposta inovadora e desafiadora une obras de adolescentes da favela e do asfalto

Universos distantes que se encontram pela arte. A mostra é resultado dessa “improvável união” entre alunos do CEAT (Centro Educacional Anisio Teixeira), em Santa Teresa, Zona Central do Rio de Janeiro, e adolescentes da comunidade do Jacarezinho, localizada na Zona Norte. Os jovens com idade entre 12 e 15 anos foram misturados para compor as 36 mandalas expostas em movimento por meio de animação criada por Marcos Magalhães, criador do Anima Mundi, e sonorizadas em filme por Mauricio Sales, com depoimentos dos participantes.

Os dois grupos não se conheciam e só se encontraram às vésperas da montagem da primeira exibição, realizada há um ano no Museu da República. Durante as oficinas, foram realizados vários trabalhos de sensibilização a fim de instigar os adolescentes a se representarem e se comunicarem de maneira subjetiva, utilizando diversas técnicas e materiais plásticos.

Para a proposta final, foram fotografadas as sombras de cada um representando com seu corpo a frase “se eu fosse arte, seria….”. Depois, organizadas em mandalas e impressas em grandes papéis, com seus centros vazios. Cada aluno recebeu a imagem da mandala em que participou para trabalhar.

‘No espaço entre nós’ é uma instalação otimista, porque aponta para a possibilidade de reduzir conflitos através da arte. A proposta era: ‘Como você soluciona em arte o espaço vazio que existe entre nós?’ Apesar de parecer muito simples, a arte pode ligar. Na verdade, a arte salva, porque se nutre e se fortalece justamente com as diferenças – ressalta Helio.

Ao lado da instalação, também haverá uma parte interativa, em que o público poderá brincar com sombras imantadas sobre caixas de luz com cores, formas e o espaço entre elas. Os trabalhos criados serão fotografados e postados no Facebook, e o público poderá guardar e compartilhar sua criação, com a hashtag #noespacoentrenos.

O MURO: instalação fotográfica interativa exibe múltiplos registros da comunidade feitos por quem vive nela

O projeto começou antes da pacificação do Jacarezinho em 2011, quando 80 meninos e meninas, de 8 a 17 anos, usaram a criatividade a fim de mostrar um novo olhar de dentro da favela. O resultado da visão dos jovens fotógrafos está na instalação interativa que dá oportunidade a qualquer visitante de enxergar a comunidade através dos olhos de quem vive fora do asfalto.

Construído em 80 blocos, “O Muro” guarda no interior os olhares das crianças (fotos), mas seus olhos estão desenhados do lado de fora, com o objetivo de humanizar ainda mais a mostra e instigar a curiosidade das pessoas de olhar através de um buraco (feito na íris) e descobrir o que há do outro lado. A principal finalidade da obra, como explica Helio Rodrigues, é desconstruir “muros” que existem na sociedade e ampliar opiniões, reduzir preconceitos e aceitar as diversidades.

“O Muro” é resultado do projeto “Eu Sou”, que desde 2006 desenvolve um trabalho de artes plásticas com crianças e adolescentes do Jacarezinho. A proposta para montar a instalação era que as crianças fotografassem o lugar onde moram com o objetivo de mostrá-lo a pessoas que não o conhecem, seguindo a estética artística à qual foram apresentadas. Antes de empunharem as câmeras e retratarem o universo de origem, os jovens participaram de oficinas de sensibilização em que foram estimulados a passar por um processo de transformação do olhar sobre aquele ambiente.

O trabalhou resultou em mais de 200 fotos, das quais oito dezenas estão expostas. Registros de flores, passarinhos e árvores se misturam a fotos que mostram crakeiros e lixo, retratando parte do cotidiano das crianças na comunidade.

Ajudamos as crianças a terem um olhar estético sobre o que já existe e a transformar em arte o que elas veem todos os dias. Mostramos ao asfalto esse novo olhar da comunidade, outros ângulos, novas perspectivas. Afinal, a arte não aceita limites. É um meio para transformar vidas. Atravessa, transgride, rompe ou, até mesmo, absorve os obstáculos e deles faz a ferramenta – conclui o artista plástico.

Mais sobre o autor, artista plástico e arte-educador Hélio Rodrigues

Aos 20 anos, em 1969, fez sua primeira exposição individual e iniciou sua participação no mercado de arte brasileiro. No ano seguinte fundou o Atelier de Artes Helio Rodrigues, escola de artes para crianças e adultos. Professor de artes e arte-educação em várias instituições de ensino no Brasil, é autor do projeto social “EU SOU” desenvolvido desde 2003, iniciado em Sulacap, que busca a reconstrução da identidade através da arte de crianças e jovens em situação de risco. Em 1987 iniciou sua trajetória no mercado internacional. Participou de 37 exposições individuais e 86 coletivas, salões, leilões e feiras de arte. É autor dos livros “Jogos sem Regras” e “Vertigens do Vazio”.

AGENDA / OFICINAS IDENTIDADE E DIFERENÇA

Dia 16/09 (sábado)

17h30 – Palestra “Espaços Vazios” e visita guiada às exposições com Helio Rodrigues.

18h30 – Abertura das exposições com coquetel.

Dia 21/10 (sábado)

16h- Palestra para Pais e Filhos “O Olhar extraordinário” com Helio Rodrigues e oficina de artes para Pais e Filhos com sua equipe.

Dia 24/10 (terça-feira)

18h30 – Palestra “Diversidade, arte e cognição ” e oficina para Educadores e interessados com Helio Rodrigues.

Dia 11/11 (sábado)

15h – Oficina de artes para Pais e Filhos.

Inscrições pelo email e telefone

saladeleitura.fca@gmail.com

(021) 3325.0448

 

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