Espetáculo de Dança: “Pai contra mãe” no CCBB

Foto: Pablo Bernardo

Sete corpos dançantes trazem ao palco os desafios de ser negro e de ser mulher em uma sociedade ainda desigual e opressora. Inspirado no conto homônimo de Machado de Assis, “Pai contra mãe” busca, por meio da linguagem das danças urbanas, tematizar e promover reflexão acerca de questões que perpassam nossa memória e nosso presente, em que as feridas da escravidão do passado ainda não se cicatrizaram e se multiplicam pela associação de antigas, porém persistentes, e novas mazelas da sociedade: o racismo, a violência, o sexismo, a ânsia por poder e a vaidade.

Há 128 anos, com a assinatura da Lei Áurea, o regime escravocrata foi oficialmente abolido do Brasil. Comparativamente, o tempo é menor em relação ao período em que a escravidão aconteceu legalmente no país: aproximadamente 360 anos. E, por mais que tenha se passado quase um século desde a abolição da escravatura, a soma desses anos deixou abertas feridas de difícil cicatrização, como o racismo e a violência contra a mulher, em especial a mulher negra. Com o objetivo de lançar luz sobre estas questões, a Cia Fusion de Danças Urbanas, de Belo Horizonte, encontrou no conto “Pai Contra Mãe”, escrito por Machado de Assis em 1906 – apenas 18 anos depois da assinatura da Lei Áurea, mas que se passa ainda na década de 1860, antes, portanto, da Lei do Ventre Livre –, inspiração para o espetáculo de dança de mesmo nome. Depois de temporada de sucesso no CCBB-BH, a companhia leva o espetáculo ao Rio de Janeiro nos dias 21 e 22 de janeiro (sábado e domingo), às 19h, no CCBB.

“A temporada de oito dias em Belo Horizonte foi incrível e com casa cheia. Foi muito bom perceber que conseguimos de fato passar a mensagem para o público presente, que respondeu ao espetáculo de forma extremamente positiva. Foi também fundamental para o amadurecimento do trabalho, que chega ao Rio mais maduro, mais forte e mais contundente”, afirma Leandro Belilo, diretor do grupo.

Duas situações conflitantes conduzem o enredo do texto machadiano que inspirou o espetáculo, que se configura como um convite à reflexão sobre temas que perpassam a vida em sociedade: de um lado, uma escrava grávida foge de seu senhorio com o sonho de ver o filho livre – uma vez que o fruto de seu ventre também estava condenado à escravidão; de outro, um homem livre da senzala descobre que vai ser pai, mas, devido às suas condições precárias de vida – como a pobreza e a fome –, vê na captura da escrava fugitiva a chance de dar um futuro ao filho, devido à recompensa que lhe seria dada.

“Esta história parece datada, mas pode ser facilmente transportada para os dias atuais, em que muitos brasileiros continuam sendo escravizados e violentados de diversas maneiras. Até hoje, feridas da escravidão do passado ainda não se cicatrizaram e se multiplicam pela associação de antigas, porém persistentes, e novas mazelas da nossa sociedade, como o racismo, a violência, o sexismo, a ânsia pelo poder e a vaidade humana”, analisa Isadora Rodrigues, integrante da companhia e produtora do espetáculo.

Para retratar situações tão complicadas, embora recorrentes, os bailarinos Leandro Belilo – que também assina a direção –, Aline Mathias, Augusto Guerra, Isabela Isa-Girl, Jonatas Pitucho, Silvia Kamylla e Wallison Culu (que faz assistência de direção) vão construindo as cenas a partir dos movimentos das danças urbanas, em coreografias criadas de forma colaborativa. Durante o espetáculo, o grupo problematiza temas como o racismo, a violência, a perpetuação da pobreza e suas relações com a história do Brasil por meio das coreografias pautadas em variadas linguagens provenientes do universo da cultura negra e urbana.

A trilha sonora do espetáculo foi construída a partir de criação original por Matheus Rodrigues e de eclética seleção musical proposta por Leandro Belilo, que reúne desde rock ao samba de Elza Soares. A música “Maria da Vila Matilde”, do álbum mais recente de Elza, A mulher do fim do mundo, não foi escolhida por acaso: ela vai ao encontro da proposta da coreografia de lançar luz sobre questões relacionadas à violência, neste caso, a violência doméstica contra a mulher.

Sobre a relação do conto com as questões de gênero, vale dizer que, mesmo tendo sido escrita há bastante tempo, a obra já discutia questões que ainda hoje reverberam contemporâneas, como as diferentes formas de se tratar um homem e uma mulher na sociedade. “Ainda que de forma bastante sutil, a discussão sobre gênero já está colocada no texto do Século XIX, e, agora, neste espetáculo do século XXI, fica escancarada. Esse assunto é um dos pontos mais importantes da construção desta montagem, fazendo, por isso, bastante sentido que fosse pontuada no título do trabalho”, explica Isadora.

Depois do Rio de Janeiro, a Cia Fusion de Dançar Urbanas voltará para Minas Gerais para apresentar “Pai Contra Mãe” em cidades da região metropolitana e do interior. Em fevereiro, o grupo se apresenta em Nova Lima, e, em março, em Ibirité. A circulação do espetáculo prossegue em abril, com uma apresentação em Uberaba, no Triângulo Mineiro.

PROCESSO DE PRODUÇÃO E DE MONTAGEM
Dois anos separam a ideia inicial do espetáculo “Pai Contra Mãe” até a sua materialização final. O trabalho começou a ganhar forma em 2014 com a inscrição do projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura. No ano seguinte, o grupo conseguiu patrocínio do Fundo de Projetos Culturais da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e do Programa O Boticário na Dança.

Com os devidos patrocínios, a companhia deu início, em 2015, às leituras do conto de Machado de Assis e às primeiras trocas de ideias para a construção do espetáculo. Nessa fase, o grupo contou com núcleos de consultoria nas áreas de Literatura – para os aspectos teóricos que envolvem o conto, por meio de encontros com o professor Reinaldo Martiniano Marques, da UFMG; Sociocultural, para discutir o lugar do negro na sociedade e na cultura, com encontros com o ator e ativista Alexandre de Sena; e Técnica, com o bailarino Italo Freitas, em que o elenco pôde aprofundar seu conhecimento sobre a linguagem e os movimentos do Krumping, estilo de dança urbana marcado pelo confronto.

Os ensaios se intensificaram efetivamente em abril deste ano, quando a companhia passou a ter uma sede própria, localizada no bairro Carlos Prates. Desde então, os integrantes se reúnem diariamente na Cafuá – Casa Fusion de Arte, onde acontecem os ensaios.

“Pai Contra Mãe”

Cia. Fusion de Dança Urbanas

Apresentações: 21 e 22 de janeiro (sábado e domingo), às 19h
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro 1. Rua Primeiro de Março 66, Centro. Tel.: (21) 3808 2020.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Lotação: 175 lugares. Duração: 55 min. Classificação etária: 12 anos.
CCBB: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/pai-contra-mae-2/
FaceBook: https://www.facebook.com/ciafusion
YouTube: https://goo.gl/lo97ip

FICHA TÉCNICA

“Pai Contra Mãe” – Cia. Fusion de Dança Urbanas

Inspirado em conto homônimo de Machado de Assis

Idealização: Isadora Rodrigues e Leandro Belilo
Direção: Leandro Belilo
Assistente de direção: Wallison Culu
Coreografia: Criação colaborativa
Intérpretes: Aline Mathias, Augusto Guerra, Isabela Isagirl, Jonatas Pitucho, Leandro Belilo, Silvia Kamylla e Wallison Culu
Figurino: Helaine Freitas
Cenário: Leandro Belilo e Mauricio Leonard
Trilha sonora: Leandro Belilo (seleção musical) e Matheus Rodrigues (criação original e apoio técnico).
Iluminação: Leandro Belilo e Edimar Pinto
Orientação de pesquisa: Reinaldo Martiniano Marques e Alexandre de Sena
Preparação corporal (Krumping): Italo Freitas
Provocações: Gil Amâncio
Design gráfico: Alegria Design
Produção artística e coordenação de projeto: Isadora Rodrigues
Produção Executiva: Isadora Rodrigues e Victor Luciano

 

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