Ex-assessor de Cabral era operador de esquema de corrupção, diz MPF

A força-tarefa da Operação Lava Jato no Ministério Público Federal, no Rio de Janeiro, informou que o servidor Ary Ferreira da Costa Filho, preso nesta quinta-feira (2) na Operação Mascate, aparece nas investigações do Ministério Público Federal como o mais importante operador financeiro do esquema de lavagem de dinheiro liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral.

Ary Filho foi preso no início da tarde por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no cumprimento de mandado de prisão preventiva decretada pela Justiça, na ação que é um desdobramento da Operação Calicute. “Ele é um operador de lavagem de dinheiro da organização criminosa e de extrema confiança da cúpula dessa organização”, afirmou o procurador da República Jessé Ambrósio, que integra a força-tarefa do MPF, em entrevista à Agência Brasil.

Ambrósio disse que a organização criminosa tinha diversos esquemas de lavagem de dinheiro: colocavam dinheiro ilega com aparência de lícito na contabilidade de empresas ligadas ao grupo e ocultação de valores ou bens de integrantes da organização criminosa.

De acordo com Jessé Ambrósio, as investigações apontam lavagem de dinheiro usando a consultoria GRALC, que passou a se chamar LRG Agropecuária, que pertencia a Carlos Miranda, ex-assessor de Cabral. “Tinha uma movimentação bastante suspeita, o que nos levou a nos debruçar sobre a empresa.”

As investigações mostraram uma movimentação suspeita no faturamento da empresa. Em 2007, o faturamento foi de R$ 700 mil. No ano seguinte, superou R$ 1 milhão. Entre 2009 e 2013, a consultoria lucrou mais R$ 2 milhões. Dois anos depois, o faturamento caiu para R$ 7 mil.

Para o MPF, a empresa era usada por integrantes da organização criminosa para lavagem de dinheiro. Segundo Jessé Ambrósio, foram encontrados pagamentos em valores elevados de concessionárias de veículos para a empresa de Carlos Miranda. Ao colaborar com a investigação, um dos donos das concessionárias confirmou ter sido procurado por Ary Filho para participar do esquema.

“As concessionárias recebiam da quadrilha os valores em espécie, enviados por Ary Filho. Esses valores eram arrecadados pelo grupo, especialmente por Carlos Miranda, junto a empresas que participavam do esquema de corrupção. Como o dinheiro era em espécie, difícil de ser identificado, davam esse dinheiro para as concessionárias que contratavam os serviços de consultoria fictícios da empresa GRALC. Através dos contratos fictícios, o dinheiro sujo voltava com aparência de lícito, em pagamento à empresa”, afirmou o procurador.

O procurador informou que Ary Filho combinou um esquema de ocultação de bens com a empresa Imbra Imobiliária.

A imobiliária comprava imóveis e veículos em seu nome, mas que pertenciam a Ary Filho e membros de sua família. Foram adquiridos imóveis, por exemplo, em cidades como Búzios, na Região dos Lagos, e São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e automóveis luxuosos, como um Camaro.

“Ele [Ary Filho] entregava dinheiro em espécie. A empresa comprava o imóvel na sua contabilidade normal e deixava o senhor Ary e sua família usarem o imóvel, que era deles. Para dar alguma segurança na operação faziam contratos de gaveta, que nunca eram levados à revista, dizendo que os imóveis pertenciam ao senhor Ary e sua família”, completou.

Conforme o procurador, além do mandado de prisão de Ary Filho, o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, expediu mandados de busca e apreensão, quebras de sigilo e o arresto de bens e valores de até R$ 8 milhões do acusado. 

Proximidade

Segundo Jessé Ambrósio, Ary Filho tinha relacionamento com Sérgio Cabral, quando esse era deputado estadual e o nomeou para assessor na Assembleia Legislativa em 1996. Depois disso, também foi assessor de Cabral em 2004, no Senado; e no governo do Estado, entre 2007 e 2010. Conforme o MPF, Ary Filho pediu exoneração em julho de 2010 e retornou ao cargo em outubro do mesmo ano, após a campanha de Cabral à reeleição. O agente fazendário se manteve no cargo de assessor especial durante todo o período e só pediu exoneração depois do oferecimento da denúncia da Operação Calicute, em dezembro de 2016.

O procurador disse que não é possível avaliar quanto dinheiro pode ter sido “lavado” em todo o período em que Ary Filho ocupou os cargos de assessoria, desde 1996. Os valores divulgados se referem a período mais recente.

“A cada dia, vamos descobrindo novas formas de lavagem de dinheiro ou outros locais onde o dinheiro está escondido. Já recuperamos cerca de R$ 300 milhões, o que já é bastante coisa, mas sabemos que não pegamos todo dinheiro, porque esses esquemas são exatamente para lavar e ocultar. Temos que investigar a fundo para rastrear esses valores, onde quer que estejam.”

Agência Brasil

 

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