“Farra dos guardanapos” seria comemoração da escolha do Rio para sede olímpica

Foto: Reprodução/ Facebook

O episódio que ficou conhecido como “farra dos guardanapos” pode ter sido uma comemoração antecipada da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos 2016, “por quem mais lucrou com os jogos”, segundo avaliação do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ), que participou da Operação Unfair Play, deflagrada hoje (5), e que investiga a suposta compra de votos no Comitê Olímpico Internacional para a escolha da cidade para sediar o evento esportivo.

O caso aconteceu em setembro de 2009, em Paris, onde o ex-governador Sérgio Cabral tinha recebido uma homenagem. Fotos da celebração em que Cabral aparece ao lado de outros com guardanapos na cabeça foi publicada em 2012 pelo ex-governador Anthony Garotinho. Dos que aparecem na foto, quatro estão presos, envolvidos em esquemas de corrupção investigados pela Operação Calicute, um desdobramento da Lava Jato: além de Cabral, o dono da empreiteira Delta Construções, Fernando Cavendish, e os secretários de Cabral das pastas da Saúde, Sérgio Cortes, e de Governo, Wilson Carlos.

Segundo a procuradora Fabiana Schneider, foram identificados depósitos que somam US$ 2 milhões feitos pela empresa Matlok Capital Group, do empresário Arthur Soares Filho, conhecido como Rei Arthur, às empresas de Papa Massata Diack, filho do então presidente da Federação Internacional de Atletismo, o senegalês Lamine Diack, também membro do Comitê Olímpico Internacional (COI).

“Chama a atenção a proximidade dos depósitos com a escolha da cidade. No dia 23 de setembro de 2009 ocorre a primeira transferência bancária de US$ 2 milhões da Matlok para Papa Massata Diack. Mas como não havia nenhuma relação entre eles, nenhuma justificativa para a transação, o banco francês devolveu o depósito no dia 28, de acordo com as regras francesas. No dia 29, a Matlok deposita US$ 1,5 milhão para uma empresa de Papa Diack, em Dakar (África), e US$ 500 mil para outra na Rússia. No dia 2 de outubro acontece o evento na Dinamarca, em que o Rio de Janeiro ganhou a posição para sediar a olimpíada, mesmo tendo as piores condições entre todos os candidatos”, disse Fabiana.

Segundo a procuradora, os representantes africanos do COI tinham o costume de votar em bloco, portanto, o voto de Diack pode ter influenciado todo o continente. Outro elemento apontado por ela, é o papel do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, que teria feito a ligação entre Soares e Diack.

“Antes da escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016, as três esferas da federação, município, estado e União, traziam a informação e vendiam a ideia de que os jogos trariam grande desenvolvimento para cidade do Rio de Janeiro. Depois de tantas investigações e denúncias, o que a gente vê é que, na verdade, os Jogos Olímpicos foram usados como um grande trampolim para o cometimento de atos de corrupção de dimensões olímpicas. Formou-se uma triangulação de interesses e favores entre agentes políticos, esportistas e um seleto grupo privado, que cuidadosamente planejou cada passo para que os jogos olímpicos viessem para o Brasil e os lucros futuros que poderiam obter”, disse a procuradora.

O procurador Eduardo El Hage, que integrou a operação, destacou que o esquema difere de outros da organização de Cabral, que costumava receber propina em espécie para evitar o rastreamento do dinheiro. Mas que, devido à confiança que Cabral tinha no operador financeiro Renato Chebar, fez a operação por meio de contas bancárias em paraíso fiscal.

“A empresa Matlok abriu uma conta em Antígua e Barbuda, no Banco EVG, aberta pelo Renato Chebar. Outra conta foi aberta pelo Arthur Soares Filho, que deu uma procuração para Renato Chebar movimentar essa conta e transferir valores para contas em seu próprio nome, mas que de fato pertenciam ao senhor Sérgio Cabral. Ao longo de 2011 e 2012, foram transferidos para essas contas US$ 10.474.460,00. Isso foi relatado para nós por meio de colaboradores, os gestores do Banco EVG e o próprio Renato Chebar”, informou Eduardo.

O MPF destaca que Soares também estava presente em Copenhagen, no evento de anúncio da cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016, mesmo não tendo relação nenhuma com a área esportiva. A empresa Facility, de propriedade dele, foi a maior fornecedora de mão de obra terceirizada ao governo do estado e chegou a faturar R$ 2 bilhões por ano.

Cooperação Internacional

Toda a operação deflagrada hoje contou com colaborações de Antígua e Barbuda, França, Estados Unidos e Reino Unido. Representantes do Ministério da Justiça francês participaram da ação. O procurador Nacional Adjunto Financeiro do país, Jean-Yves Lourgouilloux disse que as investigações por lá começaram no fim de 2014, com o caso de dopagem envolvendo atletas russos.

Agência Brasil

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