Lixão de Gramacho, o maior da América Latina, após quatro anos de desativação

Foto: Dayana Neves

O maior lixão da América Latina era o de Jardim Gramacho, que existia desde 1976. O local recebia toneladas de rejeitos químicos e orgânicos todos os dias, e os lixos eram despejados na Baia de Guanabara, que por sua vez também acolhia todos aqueles dejetos, poluindo ainda mais o mar. Muitas famílias viviam nessa área e catavam materiais que pudessem reciclar ou reaproveitar, mesmo sendo um lugar precário, era dali que tiravam o sustento.

A lei 12.305/10 de 2012 estabeleceu o fechamento dos lixões, e determinou a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que reconhece profissionalmente e dá capacitação, prevendo a inclusão social dos catadores. Foi nesse ano, que os moradores começaram a pensar que o lugar iria melhorar, mas com receio de perder a única fonte de renda. Na época, o lixão abrigava cerca de 1.700 catadores cadastrados, de acordo com os dados da Prefeitura de Duque de Caxias.

Em 2012, quando o lixão foi aterrado, a promessa da Prefeitura era de dar melhores condições de vida para aquela população, mas com o passar dos anos muitos catadores continuam sem nenhuma perspectiva de vida e crescimento no local. Segundo a prefeitura, cada catador cadastrado recebeu cerca de R$14.000,00 do governo para se manter, e em janeiro de 2016 foi inaugurado o Centro de Triagem de Materiais Recicláveis, que atende os catadores que fazem coleta seletiva de sete cooperativas participantes do projeto na Vila São Luís, ou seja, eles alegam que empregos estão sendo gerados.

Cristiane Maria Corrêa, ex-catadora do lixão, contou que não recebeu os R$ 14.000,00 do governo como eles prometeram, porque a associação responsável por cadastrar os catadores sumiu com as cópias dos seus documentos. Hoje, Cristiane trabalha numa empresa de reciclagem e recebe mil reais por mês. Como o local onde vive não possui água potável, ela solicita carro-pipa e gasta cerca de R$ 300,00, restando apenas R$ 700,00 reais para sustentar uma família de oito pessoas.

— A desativação me ajudou muito. Antes, aqui no lixão, não tínhamos certeza de quant­o íamos tirar no mês, agora minha renda é fixa — comenta Cristiane.

Cristiane Maria Corrêa
Foto: Lidiane Mara

Quatro anos após a desativação, os moradores ainda aguardam por melhorias que foram asseguradas pelo Governo do Estado. Sem saneamento básico, com problemas de fornecimento de água e vivendo em casas em condições precárias, os ex-catadores têm sobrevivido com apenas o Bolsa Família, que muita das vezes sustenta mais de quatro pessoas. A grande maioria recebe doações de muitas instituições sem fins lucrativos, igrejas e até de pessoas que querem fazer o bem.

Jaqueline Cunha das Neves, de 24 anos, tem dois filhos e sobrevive apenas com R$ 150,00 que recebe do programa Bolsa Família. Uma das crianças tem problemas neurológicos e não possui nenhuma assistência médica. Jaqueline contou ao nosso Portal, que começou a trabalhar no lixão aos 13 anos de idade, e atualmente, Jaqueline recorre aos lixões clandestinos para tentar algum sustento extra para sustentar um total de cinco pessoas.

— Vai ser com o meu trabalho em lixões clandestinos que vou conseguir comprar a roupa de natal para os meus filhos — relata Jaqueline.

Algumas ONGs trabalham diretamente para cuidar dessas pessoas que vivem em péssimas condições de moradia. Quem pode ajudar, presta serviços sociais com atendimento de serviços à população, arrecadando doações de alimentos e roupas para a sobrevivência das famílias, que se sustentavam do lixão. De acordo com o, Instituto Estadual do Ambiente (INEA), em função da crise o Estado não pode realizar trabalho de urbanismo e nem dar infraestrutura suficiente para esses moradores. 

O projeto social “Missão Amor que Cura” consegue ajudar parte daquela população sofrida. Eles recebem doações, e todo último sábado do mês eles se reúnem para levar um pouco de alegria aquele local. O projeto realiza atividades recreativas para as crianças e também leva médicos voluntários para prestar atendimento aquele povo.

Foto: Missão Amor que Cura

Luise Magalhães Valentim, de 25 anos, é voluntária há um ano e meio, no Resgate da Infância Social (Riso) – projeto criado em 2014 e desde então acompanha o desenvolvimento das crianças do lixão, hoje eles possuem 12 crianças apadrinhadas. No lixão do Jardim Gramacho o tráfico de drogas é dominando no local. Por isso, a Riso começou com um novo projeto de capacitação para ingressar os adultos no mercado de trabalho, e após o treinamento eles são empregados em empresas parceiras da ONG.

Foto: Divulgação Luise Magalhaes /Arquivo pessoal

Já o projeto de Felipe Ximenes, o Arte-vida, tenta levar um pouco de amor, justiça, respeito para aquelas pessoas que tanto sofrem. Há dez anos eles cuidam de crianças de 4 a 17 anos sem nenhuma ajuda governamental, apenas contam com o auxílio de instituições evangélicas, amigos e voluntários. De segunda a sábado, em dois turnos, as 50 crianças que estão no projeto têm aulas de alfabetização e cursos de pintura, ballet, música e teatro.

Felipe Ximenes com alguns dos alunos do Arte-Vida. Foto: Lidiane Mara

“A Corrente Pelo Bem”, também tem realizado um excelente trabalho. A cada dois meses procura realizar uma grande festa para todos que lá vivem. No início deste mês de dezembro, a ong realizou a última ação do ano de 2016. No local, 530 cestas básicas foram distribuídas, mas ainda foi pouco para atender os 20 mil habitantes. A população se alegrou com a ação, mas não foram todos que conseguiram a pulseira que dava direito a cesta.

Mesmo com todos os projetos e ONGs disponíveis em ajudar, muitas famílias ainda não tem acesso às doações e imploram por comidas, roupas e brinquedos. Enquanto a prioridade do governo não for cuidar dessas pessoas, elas vão ficando a mercê do tráfico que existe no lixão e propensas a contrair doenças.

Com Dayana Neves/Lidiane Mara/Louize Lopes

 

 

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