Mulheres afetadas pelo Zika se mobilizam em busca de apoio e informação

Se por um lado as mulheres figuram como as principais vítimas do vírus Zika no país, por outro elas emergem como líderes e empreendedoras de iniciativas de apoio. Seja na internet ou em associações, as mães de bebês com microcefalia vêm se unindo em redes de solidariedade para se proteger, informar e amenizar as consequências da epidemia. Nesta sexta-feira (11) completa um ano desde que o Ministério da Saúde decretou a epidemia do vírus Zika como Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

A mobilização começou por aquelas que foram afetadas diretamente pelo vírus: as mães. Juntas nos corredores de hospitais, elas compartilham suas vivências e se unem pela garantia de direitos. No Hospital Municipal Dom Pedro I, em Campina Grande (PB), salas antes ocupadas para fins médicos, agora estão cheias de doações de fraldas, latas de leite, roupas e calçados infantis. “O que a gente tem feito aqui desde o começo foi encampar essa dor e essa angústia dessas mãe. Então, independente da especialidade, todo mundo é meio que assistente social e psicólogo”, conta Adriana Melo, especialista medicina fetal.

A roda de psicologia é um dos momentos mais aguardados pelas mães que frequentam a unidade. Depois das sessões de fisioterapia dos filhos, elas tomam café da manhã e conversam sobre seus anseios. O momento de troca de experiências é seguido da sessão de terapia, em que elas são conduzidas por uma psicóloga a pensar nas mudanças de suas vidas.“Todo aprendizado humano ocorre num processo coletivo. Seja troca de conhecimento, seja de afeto. O grupo tem um potencial enorme de transformação. A gente aposta nessa técnica para que elas possam realmente perceber que não estão sozinhas nessa luta, que estão junto com outras mulheres que estão vivendo algo parecido.”, explica a psicóloga Jaqueline Ramos Marinho.

Um dos focos do trabalho é ressignificar a maternidade para essas mulheres, que em grande parte descobriu a microcefalia no pós-parto. “Elas precisaram fazer toda uma desconstrução de uma maternidade idealizada para substituir por uma maternidade real. É um trabalho árduo. A gente percebe que elas conseguiram dar outro sentido à maternidade, transformando uma situação que é tão difícil, em algo positivo. Não mais olhar o filho como uma criança que possui uma deficiência, mas como uma criança que tem também potencial de transformação”, comenta a psicóloga.

Transformar a dificuldade em algo produtivo foi o que fez Jéssica de Jesus, mãe de Ícaro, um dos bebês com microcefalia de Salvador (BA) atendido no Centro de Reabilitação da Irmã Dulce. Antes de ser mãe, ela já desenvolvia um trabalho social realizado junto ao bloco de carnaval “Comanches do Pelô”, com foco em ajudar crianças com algum tipo de deficiência. Jéssica e o marido perderam o emprego, mas ficou a experiência de mobilização. A partir da própria vivência das mães ao seu redor, começou a mobilizar os blocos de carnaval de Salvador para arrecadar fraldas e leite nos shows. “O nosso foco principal são as mães que fazem tratamento de fisioterapia com seus filhos aqui. Então, é muito importante que o pouco que a gente tenha, a gente possa doar”, diz.

A iniciativa foi reconhecida pela direção do hospital e por vários empresários da cidade. Jéssica ainda tem apoiado as mães para que elas procurem, junto à prefeitura ou mesmo no SUS, o atendimeno adequado. “O sonho que eu tenho agora é de ver a felicidade das mães, independente da situação que está acontecendo”, revela Jéssica.

Apoio nas redes sociais e na vida real

Em Recife, estado mais afetado pela epidemia, as mulheres foram acolhidas pela Associação de Mães e Famílias Raras, a Amar.  A presidente da associação, Pollyanna Dias, conta que tudo começou nas redes sociais, onde as mães desabafam e buscam ajuda. “A Amar surgiu de uma necessidade de cuidar da mãe. Essa mãe vinha na minha fanpage no Facebook buscando ajuda, dizer que era muito sozinha, que não estava suportando mais aquela pressão e a solidão. Diante disso surgiu o grupo para a gente poder fortalecer essa mulher”, lembra.

A associação foi procurada por um número muito grande de mães que não têm condição financeira para cuidar das crianças com microcefalia. Por isso, promove eventos de arrecadação de donativos para garantir alimentação, fraldas e transporte, entre outras necessidades. “Uma coisa que diferencia a zika das outras síndromes raras é que, nas outras síndromes, as mães são de todas as classes sociais. Na Síndrome Congênita do Zika, a maioria é de extrema pobreza. Então, a dificuldade inicial foi socorrê-las com essa parte financeira”, explica Pollyanna.

Do trabalho da Amar, surgiu a União de Mães de Anjos, conhecida como UMA, que já conta com mais de 300 cadastradas. Por meio de eventos públicos e nas redes sociais, o grupo promove ações de combate ao preconceito, arrecada doações e presta assistência às mães e bebês atingidos pela síndrome, como Elaine Michelle, 29 anos. “Foi com a UMA que eu consegui enxergar o meu filho, foi onde eu vi que não estava só, que tinhamos outras mães na mesma situação. Eu vi que não é o fim, que eles vão se desenvolver e crescer. A gente luta para isso”, declara Elaine.

Ela tornou-se uma das secretárias da UMA e explica que uma das principais lutas do grupo é o combate ao preconceito e a busca por uma sede própria. Hoje, as mães coordenadoras se reúnem semanalmente em um espaço improvisado, na sede de uma ONG cristã situada na periferia do Recife.

Apoio comunitário e empoderamento
 

Muitas integrantes da UMA são religiosas e encontram na fé o consolo e a motivação para prosseguir. As religiões de matriz africana também têm sido fonte de apoio. Na periferia do Recife, a ONG Uiala Mukaji acolhe a demanda de mulheres afetadas pela epidemia.  A organização prepara um projeto para levar informação sobre os direitos das mulheres às comunidades mais pobres. Vinte  jovens negras foram selecionadas como multiplicadoras de conhecimento em seus bairros. “Nós vamos contribuir para que mulheres negras tenham a informação, possam disseminá-la e, com isso, ela vai ajudar o Estado a fazer o enfrentamento ao vírus. Mas nós não vamos substituir os organismos da saúde, que têm a responsabilidade e a obrigação de cuidar da população. Vamos fazer isso porque entendemos que os terreiros são espaços de acolhimento e promoção da saúde”, ressalta a coordenadora da ONG e advogada sanitarista, Vera Baroni.

Nas comunidades e bairros mais afetados pela epidemia, as mulheres têm encontrado mais do que a ameaça do mosquito. Rodas de conversa, visitas às vizinhas e oficinas de capacitação são algumas das estratégias idealizadas por mulheres para disseminar informações. E os principais mobilizadores das ações tem sido os coletivos feministas.

Nesses locais, as mulheres tem transformado o caos da epidemia em oportunidades de fortalecimento de outros atributos, como a liderança. Em Salvador(BA), o Grupo de Mulheres Alto das Pombas (Grumap) tem organizado apresentações artísticas, debates e rodas de conversa. Rita de Cássia Pereira, secretária do grupo, destaca que o que mais tem inquietado as mulheres do bairro hoje é o vírus Zika. “O que está em jogo para gente é a situação de nós, mulheres negras, nesse contexto e nesse enfrentamento da microcefalia. Porque nós sabemos que estamos dentro de um país altamente racista que não nos inclui enquanto povo, imagine garantir assistência à saúde pública de mulheres negras e de seus filhos com problemas de microcefalia”, diz.

Em outra região da capital baiana, três gerações de uma mesma família atuam juntas na mobilização da comunidade do Calafate, situada no Bairro Fazenda Grande do Retiro. Aos 82 anos, Magdalena Tavares Leiro lidera um projeto de conscientização dos vizinhos sobre o lixo jogado na rua, principalmente depois da epidemia do Zika. A inspiração para o trabalho é de família. Na sala de sua casa, Magdalena exibe as fotos antigas de mulheres que lutaram por melhorias na comunidade, entre elas uma de sua tias. “Minha tia era de liderança mesmo. Era para a gente ter luz, ela andou muito e conseguiu botar rede aqui dentro. Aí ela conseguiu, a luz entrou e a gente começou a botar energia dentro de casa. Depois trabalhou para conseguir água e conseguiu.”, lembra.

Magdalena repassou a herança de ativismo adiante. Sua filha, Marta Leiro, é um das fundadoras do Coletivo de Mulheres do Calafate, que surgiu em 1992 para combater a violência de gênero. Hoje, o coletivo se dedica à prevenção da epidemia do vírus Zika, que mudou a rotina das mulheres da comunidade. “Em maio de 2015, a gente via muitas queixas das mulheres sobre os sintomas da zika, que resultavam em momentos mesmo de ficar de cama. Só que a zika chega em um contexto de muitas violações de nossos direitos, ela vem complementar muitas coisas que nós já sentimos em uma comunidade popular.”  Marta reclama ainda que a epidemia evidenciou a precariedade do direito à saúde. “A gente se depara com mulheres indo à procura dos postos por conta dos sintomas, das dores nas articulações, da febre. E nesse período, a gente não recebia o diagnóstico de zika, a gente chegava no posto de saúde, davam um dipirona e uma injeção e diziam ficar em repouso, que era uma virose.”, diz.

Azânia Leiro, 24 anos, filha de Marta e neta de Magdalena, também está à frente da mobilização das jovens do Calafate e lembra o impacto da epidemia sobre a comunidade. “Foi uma coisa sem previsão, muito rápida, inesperada e uma quantidade enorme de pessoas contaminadas ao mesmo tempo”, lembra. Azânia foi infectada pelo vírus zika. Felizmente, sem maiores consequências. Foram três dias de mal-estar e algumas manchas pelo corpo. Marta, porém, além do zika, pegou chikungunya. Há meses sente as dores da febre.

Sentindo na pele os efeitos da epidemia, mãe e filha agora se dedicam a acolher as mulheres da vizinhança, em especial as que foram diretamente afetadas e tiveram bebês com microcefalia.”Quando foi comprovado que a microcefalia era derivada da zika foi que a gente começou a se cuidar mais. Quem teve começou a se prevenir mais e quem já estava grávida teve que esperar porque, infelizmente, só é diagnosticado na hora do parto. É lógico que a gente sabe que tem um acompanhamento para o bebê, mas e para essa mulher?  A pessoa não fica mais sendo vista como a mulher, fica como a mãe do menino que nasceu com microcefalia e a gente não pode dizer isso. Ela continua sendo mulher independente da criança”, destaca Azânia.

A iniciativa dessas mulheres recebe o apoio da Organização das Nações Unidas, que tem promovido ações de publicidade, mobilização e empoderamento de jovens e mulheres em contextos vulneráveis à epidemia. “Para o Fundo de População da ONU, uma resposta que seja efetiva e que tenha as mulheres, as jovens no centro, prescinde de mobilização comunitária e de participação social. Não existe transformação que possa ser mantida se você não investir nas pessoas”, afirma Fernanda Lopes, representante do fundo.

Uma das mulheres acolhidas pelo coletivo é Greice Alves, 30 anos. Mãe de um menino de 9 anos, ela não pretendia ter outro filho. A surpresa da segunda gravidez chegou bem no início do surto do vírus. As manchas na pele antecederam o diagnóstico de que seu filho Gabriel tinha sido afetado. Greice foi a primeira mulher da comunidade a ter um bebê com microcefalia. Ao contrário de muitas mães, Greice recebeu o apoio de seu companheiro, da família e do coletivo de mulheres. Apoio que fez toda a diferença na aceitação do filho. “O coletivo me ajudou conversando, me mostrando o que é a microcefalia, que não é um bicho de sete cabeças”, diz. Hoje, ela é uma das mobilizadoras de seu bairro e encoraja outras mulheres a erguerem a cabeça e seguirem em frente na luta por direitos.

Agência Brasil

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