Nana Moraes inaugura exposição Ausência no Centro Cultural Correios

Foto divulgação

Seis anos, mais de 15 visitas ao presídio, seis mulheres, mais de 40 cartas e muita linha e retalhos. A exposição Ausência, de autoria da fotógrafa Nana Moraes, retrata a realidade de mulheres presas e suas relações com filhos e familiares, construída através de fotografias, troca de cartas e tecidos costurados e bordados em forma de colchas, mantas e toalhas. Ausência entra em cartaz no Centro Cultural dos Correios do dia 7 de junho a 6 de agosto e integra a programação oficial do Foto Rio. O trabalho faz parte da trilogia DesAmadas, onde Nana desvela a vida de mulheres estigmatizadas. O primeiro volume foi lançado em 2007 com o livro Andorinhas, que investiga a vida de prostitutas de estrada.

“Tenho essa vontade de tornar visível o que não se quer ver. Depois de fotografar um segmento tão carente e abandonado, para onde eu iria agora? Quando estava fazendo Andorinhas, muitas prostitutas falavam ‘sou prostituta, mas não sou criminosa’. Daí veio a ideia de mergulhar no mundo das presidiárias, elas precisam de voz”, explica Nana.

O trabalho Ausência começou em 2011 com muita pesquisa e estudo e muita persistência para conseguir as autorizações necessárias para adentrar as prisões. O que interessa para a fotógrafa é o ser humano, então o estudo profundo dessa realidade foi o primeiro passo para entender o que significava estar preso e confinado.

“Isso me deu uma consciência muito grande. Quando o homem é preso, a mulher ainda consegue segurar a família, mas quando a mulher é presa, o laço familiar é rompido instantaneamente, é destroçado. Os filhos vão para os vizinhos, ou para os avós, ou para os tios ou para lugar nenhum. Eles ficam abandonados. A mãe sabe disso, e ela fica presa com uma angústia tremenda”, comenta Nana

O choque dessa perda é mútuo e muitas vezes essas mulheres só adquirem a consciência da maternidade quando estão encarceradas. Foi aí que ela percebeu que escrever e retratar essas mulheres, não era o suficiente. Era preciso contar essa história de uma maneira diferente: costurando esses laços rompidos.

Dezoito mulheres do presídio Nelson Hungria, do Complexo de Gericinó em Bangu, no Rio de Janeiro, foram escolhidas pela secretaria para o projeto como um prêmio. Elas teriam a oportunidade de se conectarem novamente com seus filhos que não viam ou nem sabiam como estavam por muitos anos, através de fotografias e cartas, meios de comunicação favoritos de Nana.

Nana fotografou as mães com um fundo céu que levara para o presídio, pois a ideia era que o filho visse a mãe, e não a situação onde ela se encontrava, “o que para mim foi muito importante, pois significava que estava dando pelo menos um minuto de liberdade para essa mulher”, explica Nana, que no começo do projeto desconhecia os crimes cometidos por essas mães, “o que não fez a menor diferença saber depois”. A grande maioria estava presa por conta do tráfico.

Depois de enviadas as cartas com as fotos das mães para os familiares, tinha chegado a hora da próxima etapa: receber a resposta dos filhos. Das 17 mulheres que iniciaram no projeto, apenas seis receberam a autorização dos cuidadores dos filhos para participarem. Algumas, nem respostas tiveram. Nana viajou para o Paraná, Barra Mansa, Valença, visitou as casas dos familiares na Baixada para fotografar os filhos e entrevista-los.

“Durante todo o ano de 2015 frequentava o presídio para saber se as respostas chegavam, e ficávamos nessa angústia, mas quando chegava, era aquela alegria. Ainda insisti muito para as outras famílias que não respondiam participarem, telefonava, enviava cartas, mas desculpas eram muitas, principalmente por medo. A mulher do Paraná nem acreditou, chorou muito quando soube que eu iria até lá”, lembra.

Segundo Nana, foi nesse momento que as grandes fotos apareceram: das mulheres recebendo as cartas com as fotos dos filhos. “Quando eu falo que as grandes fotos apareceram, não estou falando da técnica ou luz, estou falando que eu consegui fotografar a subjetividade delas. Eu queria falar pela fotografia. É a narrativa que me interessa”, explica.

Com todo esse material em mãos o próximo passo era contar essa história. Mas como? Inspirada pelo trabalho das Arpilleras chilenas, técnica têxtil muito difundido por Violeta Parras, Nana costurou manualmente diversas peças que representam o aconchego, calor, conforto, como cobertor, mantas, toalhas, feitas a partir de retalhos de tecidos e fotos, e bordados de frases que ouviu das presas e familiares e de trechos das cartas.

“Meu dedo ficou em carne viva costurando essas peças, mas foi como escolhi contar essas histórias, pois é como se eu estivesse costurando, remendando, essas relações entre as mães e seus filhos e filhas”.

Ausência fica em cartaz no Centro Cultural dos Correios do dia 7 junho a 6 de agosto.

Ficha técnica:

Ausência Nana Moraes

Impressões: Thiago Barros

Cenografia: Suzane Queiroz

Imagens em vídeo: Nana Moraes

Montagem de video: Thiago Gadelha

Suporte audiovisual: Pedro Bronz

Iluminação: Julio Katona

Montagem: Kbedim Montagem e Produção Cultural |

Recorte eletrônico: Profisinal

Molduras: Enquadre

Agradecimentos: SEAP – Secretaria de Estado e Administração Penitenciária, Coordenação de Inserção Social.

Apoio:

Centro Cultural Correios

FotoRio 2017 Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro

Enquadre

Approach Comunicação

Serviço

Ausência, por Nana Moraes

7 de junho a 6 de agosto

Centro Cultural dos Correios

Rua: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro

De terça a domingo, das 12h às 19h. Entrada franca.

 

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