Novela polêmica com ‘história de amor’ entre mulher e menino de 9 anos é tirada do ar na Índia

Uma novela de TV que girava em torno da bizarra história de amor entre um menino de 9 anos e uma mulher de 18 foi retirada do ar na Índia após críticas de que o programa estimulava o casamento infantil e era retrógrado.

Em uma nota publicada nesta terça-feira, o canal a cabo Sony Entertainment Television comunicou a decisão de cancelar a controversa novela Pehredaar Piya Ki (“A Guarda do Marido”, em tradução livre).

O canal não justificou a decisão, mas a novela, lançada em meados de julho, atraiu muitas críticas desde sua estreia por retratar este estranho par romântico.

A polêmica começou quando a Fundação Jai Ho, uma ONG baseada em Mumbai, começou a fazer petições às autoridades, pedindo um “banimento imediato” do programa – descrito pela organização como “indecente” e “inapropriado para crianças”.

A novelatambém despertou críticas e reclamações nas redes sociais do país, onde o casamento infantil, apesar de proibido, ainda é prática comum em várias partes do país.

A história começa com o jovem príncipe Ratan Kunwar, herdeiro de uma rica família real, se apaixonando à primeira vista pela jovem Diya.

Ela é bem mais velha que Ratan, que é uma criança de 9 anos. Ele a segue, tira fotos dela e eles desenvolvem uma amizade – e Ratan não deixa escapar oportunidades para dizer que quer casar com ela.

Em uma ocasião, Diya salva a vida de Ratan quando ele acidentalmente escorrega, e promete: “Não vou deixar nenhum mal chegar até você”.

A promessa dela é música para os ouvidos dos pais da criança, que são paranoicos quanto aos perigos que o menino corre diante de parentes mal intencionados. Diya vira uma espécie de guarda-costas do garoto.

A paranoia dos pais tem, no entanto, um fundamento – o palácio é um local de intrigas e, quando os parentes têm a chance, matam a mãe de Ratan e ferem gravemente o seu pai.

Em seu leito de morte, o pai tira de Diya a promessa de casar com o menino porque “ela é a única que pode protegê-lo”.

“Quando os primeiros episódios foram exibidos, as opiniões se dividiram”, disse à BBC a jornalista Megha Mathur. “Críticos reclamaram da forma esquisita como a criança perseguia a mulher; outros elogiaram a personagem Diya, uma jovem de 18 anos empoderada e decidida.”

Na Índia, as crianças são criadas desde pequenas com a ideia de que todos devem se casar um dia — e é normal ver pequenas meninas e meninos dizendo que gostariam de se casar com seus pais ou outros parentes quando forem maiores.

“Mas, perto do quinto episódio, o menino de 9 anos começou a se comportar como se fosse um adulto e eu acho que eles perderam o enredo”, comenta Mathur.

Em uma carta ao ministro da Informação e da Radiodifusão da Índia, Smriti Irani, o grupo Jai Ho diz que “uma criança é vista acariciando, acossando e tendo uma relação de natureza sexual com uma moça que tem mais do que o dobro de sua idade…Esta é uma representação indecente e obscena de uma criança”.

Uma petição dirigida a Irani no change.org reuniu mais de 100 mil assinaturas, levando o ministro a pedir ao órgão que monitora e controla o conteúdo de programas de TV no país para que tomasse uma “ação imediata” contra o programa.

O órgão, o Broadcasting Content Complaints Council (BCCC, na sigla em inglês), ordenou que a novela passasse a ser exibida às 22h30, em vez do horário nobre das 20h30. O programa também passou a ter que expor um aviso com os dizeres “Nós não apoiamos o casamento infantil”.

Os produtores da série também disseram que estavam planejando “um salto de idade” e, em algum momento nas próximas semanas, o príncipe teria 21 anos.

Mas para os críticos, isso não era suficiente.

“Ninguém realmente olha para os avisos”, disse o presidente da Fundação Jai Ho, Afroz Malik.

“O jovem casal fala sobre ir em uma lua de mel. Há conversa sobre suhaag raat [consumação do casamento]. Esse não é o retrato correto de uma criança”, disse ele, acrescentando que a fundação iria aos tribunais caso o roteiro não sofresse mudanças drásticas.

Isso não será mais necessário.

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