Oranienburg, a capital das ‘bombas esquecidas’ da Segunda Guerra Mundial

Em 15 de março de 1945, quando uma esquadrilha de bombardeiros B-17 da Força Aérea Americana sobrevoou Berlim, as defesas alemãs já tinham sido devastadas pelos anos de combate em duas frentes. A missão seguiu, então, sem muitos problemas em direção à cidade vizinha de Oranienburg.

Lá, em apenas 45 minutos, quase 6 mil bombas foram despejadas sobre um alvo estratégico: Oranienburg era um ponto importante da infraestrutura militar nazista, com depósitos de veículos, estradas de ferro e, sobretudo, um laboratório de enriquecimento de urânio.

Mais de 70 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a cidade ainda sofre com os efeitos dos combates. E é o símbolo de um problema que afeta toda a Alemanha: a ameaças das bombas “esquecidas”.

Segundo estimativas de geólogos, a cidade tem de 300 a 450 bombas não detonadas em seu subsolo. Isso apesar de mais de 200 terem sido neutralizadas nas últimas décadas. Alertas de emergência são comuns, bem como evacuações de quarteirões inteiros.

O site da prefeitura tem uma seção especial sobre informações relacionadas a possíveis descobertas “explosivas”. E Oranienburg foi até tema de um documentário sobre o assunto.

Image caption Em 2013, esquadrão antibomba precisou detonar uma bomba de 200 kg em uma rua residencial de Oranienburg | Foto: Divulgação

Instabilidade

De acordo com analistas militares alemães, Oranienburg foi a cidade do país mais bombardeada por quilômetro quadrado durante a Segunda Guerra. E o custo total de “limpeza” poderá chegar a 500 milhões de euros.

A operação é encarecida pelo fato de que grande parte das bombas despejadas sobre a cidade era de detonação retardada – aquelas que não explodem imediatamente ao atingir o solo e, entre outros efeitos, espantam esforços de reconstrução imediata.

Décadas de abandono provocaram reações mecânicas e químicas que deixaram esses artefatos instáveis.

“Algumas dessas bombas têm seus detonadores extremamente sensíveis a vibrações e impactos e, provavelmente, podem explodir sozinhas”, escreveu, em um estudo publicado há três anos, Wolfgang Spyra, especialista em engenharia química e materiais perigosos.

O assunto é também um imbróglio político: de acordo com a legislação alemã, o governo federal paga apenas pela remoção de bombas pertencentes ao regime nazista. Material importado fica majoritariamente por conta do poder municipal e estadual, o que frequentemente gera protestos de autoridades regionais.

“O legado perigoso das munições aliadas é algo proveniente de uma guerra deflagrada pela Alemanha como um todo. Não podemos ser responsáveis pelo azar histórico de estarmos em uma das principais zonas de combate da Segunda Guerra”, reclama Dietmar Woidke, governador do Estado de Brandemburgo, onde fica Oranienburg.

Sustos

Mas a cidade nem de longe é a única da Alemanha às voltas com os UXO (a sigla para artefatos não explodidos).

No fim de semana, Frankfurt, um dos principais centros financeiros do mundo, foi palco de uma operação de emergência em que 65 mil pessoas tiveram que deixar suas casas – a maior mobilização deste tipo na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra.

O motivo? Uma bomba de fabricação britânica, pesando mais de uma tonelada, encontrada em um canteiro de obras na quarta-feira.

Mesmo hospitais, asilos e a sede do Banco Central Alemão tiveram que ser evacuados.

Nenhuma surpresa: apenas dois dias antes, mais de 20 mil pessoas foram deslocadas em Koblenz por causa de outra bomba encontrada em um canteiro de obras.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Esquadrão antibombas é acionado frequentemente para trabalhar em desativação de UXOs

A estimativa é que em toda a Alemanha existam centenas de milhares de bombas “esquecidas”. Todos os anos, operações de desativação ocorrem em cidades do país.

Bombas, granadas, minas

Segundo estimativas de vários especialistas, com base em documentos militares, 2,7 milhões de toneladas de bombas caíram em solo alemão durante a Segunda Guerra. Um total assustadoramente maior que as 74 mil toneladas de explosivos alemães despejados pela Luftwaffe (a Força Aérea) sobre o Reino Unido, por exemplo.

Anualmente, são descobertos, em média, duas mil toneladas de UXOs na Alemanha, um material que não inclui somente bombas despejadas por aviões, mas granadas, minas terrestres e mesmo munições abandonadas.

Não por acaso, o país tem uma unidade de segurança especial atuar em casos de “bombas esquecidas”, a KMDB. Seus peritos, segundo estatísticas oficiais, desativam uma delas a cada duas semanas. Um trabalho corajoso e perigoso – nos últimos 15 anos, pelo menos 11 peritos morreram em detonações.

Só quem não parece reclamar muito são as empresas de engenharia e geologia que oferecem serviços de detecção de UXOs na Alemanha – uma indústria que inclui consultoria para projetos marítimos.

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