Os Insones no Teatro Eva Herz

Foto divulgação

Na peça, assim como no livro de Tony Bellotto, suspense e violência são os ingredientes usados para retratar uma juventude que se sente perdida e os rumos de uma classe média iludida com velhos dogmas e valores. É nesse cenário que se encontram as histórias de Samora, um adolescente negro e rico, morador do Leblon, que quer se tornar guerrilheiro e mudar o mundo; da branca Sofia, moradora de Ipanema e dada como desaparecida, ou da mulata Mara Maluca, chefe de quadrilha, uma adolescente abrutalhada que mata com uma indiferença dilaceradora. Eles são parte dos mais diversos extratos sociais que vivem num constante clima de tensão. Todos têm a mesma vontade de agir para mudar o mundo e o próprio destino.

Foram esses personagens, que surgiram há dez anos das noites de insônia de Tony Bellotto, que encantaram e despertaram em Erika Mader a vontade de retomar a carreira de diretora teatral que começou em 2012, quando ela estreou dirigindo Sóbrios, de Adam Rapp. “Li o livro assim que foi lançado e me apaixonei. Alguns anos depois, pesquisando textos para futuros projetos, voltei ao livro e me dei conta de que aquela história ainda estava muito viva, atual e me tocava imensamente. Os dilemas, a temática e a personalidade do texto me chamaram a atenção. Como um soco no estômago”.

A ideia de adaptar o texto de Bellotto surgiu quando Erika voltava ao Brasil depois de um período em Buenos Aires. “Assim que voltei da Argentina, me casei e engravidei, tudo muito rapidamente. Foi justamente aí que me reencontrei com o livro e resolvi adaptá-lo para os palcos. Levei quase dois anos adaptando o texto do Tony. Comecei no início da minha gravidez e terminei pouco antes da minha filha completar um ano. Foi um processo lento e difícil.”

Os Insones é um texto forte, cheio de questionamentos e a adaptação de Erika e sua concepção, segundo o próprio autor, deixam claro que os acontecimentos no Morro do Café continuam atuais e perturbadores. “Escrever Os Insones não curou a minha insônia. E duvido que ela não acometa os espectadores depois de saírem do teatro ”, garante Bellotto. Erika faz questão de frisar que gosta de uma dramaturgia que tenha boas histórias e bons personagens. “O que me interessa são as dúvidas, o terreno pantanoso, as diferentes vozes de um mesmo texto. A arte livre de respostas. No momento tenho tido preferência pelo que me causa desconforto”, conta Erika.

Durante todo o processo de adaptação, a parceria com Tony Bellotto foi sempre muito generosa. ”Ele me deu liberdade total para brincar com o texto, ajudando sempre que necessário. Um grande parceiro. Adaptar é desapegar-se. O livro tem personagens maravilhosos que precisaram ser eliminados ou condensados. Eu poderia fazer diferentes espetáculos a partir de Os Insones. São muitas histórias entrelaçadas, com personagens densos e interessantes. Optei por explorar a trama do Samora.” conta Erika, que resolveu ampliar a parceria convidando Bellotto para fazer a trilha sonora do espetáculo. “O livro é repleto de referências musicais, em especial o rap, que permeia a narrativa. Acho que a vivência na música fez o assunto invadir a obra do Tony. Então eu sempre imaginei a música da peça como um elemento forte, presente e com personalidade. Precisava de alguém que mergulhasse fundo nestas referências para criar uma camada musical interessante para o espetáculo. E ninguém melhor do que o Tony, que de fato criou todo este universo”.

Tony Bellotto já tinha trabalhado uma vez na trilha-sonora da adaptação de outro de seus livros, o filme Bellini e a Esfinge, uma experiência que considerou muito gratificante. “É como juntar duas pontas de mim mesmo – o músico e o escritor – num só nó górdio, aquele que não se consegue desfazer”. Quando Erika o consultou sobre a pesquisa musical, Bellotto revelou que andava conversando muito sobre o assunto com o João (filho mais velho dele com a Malu Mader), que estuda cinema e está se inclinando cada vez mais para o lado da trilha-sonora. E os dois abraçaram a ideia. “Enquanto escrevia Os Insones, muitas vezes eu ouvia tiroteios noturnos. Pensava nos meus filhos, ainda pequenos, dormindo no quarto ao lado, e me preocupava com a cidade que eles habitariam no futuro. Ter agora um dos meus filhos me ajudando a reproduzir esses mesmos tiros para a trilha sonora de Os Insones, prova que noites em claro também podem ser reconfortantes”, completa o autor.

SINOPSE
Os Insones conta a história de Samora (Guilherme Ferraz), um adolescente negro e rico, criado no Leblon que, depois de ler e ouvir os grandes ícones da guerrilha e do movimento negro, decide abandonar o quarto com ar-condicionado para fazer uma revolução. A maneira que ele encontra para realizar este desejo é subindo o Morro do Café e entrando em contato com Mara Maluca (Polly Marinho), uma adolescente abrutalhada, dona do tráfico do morro, que mata com uma indiferença dilaceradora.

Mara vive escoltada por Anjo (Pedro Henrique Andrade), um rapaz branco, ignorante, perdido e apaixonado por Chayene (Sol Mennezes), negra e moradora da comunidade, que sonha ser atriz e faz parte do grupo de teatro do morro, uma ONG liderada por Humberto (Ernesto Xavier), professor de teatro que pensa que vai salvar os jovens do morro através da arte.

Ao mesmo tempo, Sofia (Amanda Grimaldi), uma adolescente de dezenove anos, some de casa e ninguém sabe o motivo. Renato (José Karini/Lucas Gouvea), seu pai, é um publicitário bem-sucedido, mas escritor frustrado, que largou a família para viver com uma outra mulher em São Paulo. Lilian (Cinthia Reis), a mãe, é uma paisagista vegetariana que, com o sumiço da filha, percebe que não conhece tão bem seus filhos como imaginou. Felipe (Leonardo Bianchi), o irmão de Sofia, é um adolescente calado, estranho, que coleciona armas e mente para a família sem o menor ressentimento.

Os policiais Zé Luis (Andreas Gatto) e Valter (André Frazzi) surgem no meio desta confusão para tentar desvendar o mistério do desaparecimento de Sofia e entender qual a relação da menina com Samora, este bandido disfarçado de guerrilheiro anacrônico que anda colaborando com Mara Maluca e que está colocando a cidade num clima de guerra.

SERVIÇO
Temporada: 07 de março a 26 de abril (exceto dia 29 de março)
Horário: Terças e quartas às 19h
Local: Teatro Eva Herz (Livraria Cultura)
Endereço: Rua Senador Dantas 45 – Centro
Horário: Terças e quartas às 19h
Lotação: 174 lugares (com 4 vagas para cadeirantes)
Classificação: 16 anos
Duração: 100 minutos
Preço: inteira R$40,00 / meia R$20,00
Ingressos: ingressorapido.com.br e bilheteria do teatro

FICHA TÉCNICA

Texto original: Tony Bellotto
Adaptação, direção e direção de produção: Erika Mader

Elenco: Amanda Grimaldi, André Frazzi, Andreas Gatto, Cynthia Reis, Ernesto Xavier, Guilherme Ferraz, José Karini, Leonardo Bianchi, Lucas Gouvea, Pedro Henrique Andrade, Polly Marinho, Sol Menezzes

Luz: Paulo Cesar Medeiros
Cenário: Lorena Lima
Figurino: Bruno Perlatto
Trilha-sonora: João Mader Bellotto, Pedro Richaid e Tony Bellotto
Fotografia: Loló Bonfanti
Programação visual: Luiza Chamma
Produção executiva: Marcela Büll
Administração financeira: Alan Isídio
Diretor de palco: Tarso Gentil
Diretor de camarim: Ramon Alcântara
Operador de som: Leo Maia e Leonardo Rocha
Operador de luz: Adenilson Junior
Assistente de figurino: Pamela Kopp

 

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