Spinalonga, a ilha grega onde leprosos eram abandonados para esperar a morte

A primeira vez em que vi Spinalonga foi quatro anos atrás. Observei-a do alto de uma colina próxima à aldeia de Plaka, no norte da ilha de Creta.

Com apenas 8,5 hectares de área, a ilha no Golfo de Mirabello estava escurecida pela sombra, escura como se coberta por carvão.

Árida e pedregosa, a ilha no passado serviu como um posto militar durante o período de domínio veneziano – e depois otomano.

Uma cidadela medieval é testemunha deste capitulo na história de Spinalonga.

Em 1904, com a expulsão dos otomanos pelos cretenses, a ilhota foi transformada em uma colônia para leprosos, que virou o destino geral de portadores da doença quando Creta tornou-se parte da Grécia, em 1913.

Séculos de estigma

No pico de suas atividades, a colônia teve até 400 habitantes.

A lepra, doença que causa deformidades na pele e danos aos nervos das regiões do corpo afetadas, também torna seus portadores alvos de um estigma social.

Ao longo da história, aqueles com a doença foram desprezados por famílias, comunidades e mesmo médicos.

A estigmatização era tamanha que desde de tempos muito antigos a lepra carrega o apelido de “a morte que precede a morte”.

Passado apagado

Na Grécia do século 20, pacientes diagnosticados com lepra tinham propriedades e posses confiscadas, além de cidadania cassada e suas identidades simplesmente apagadas dos registros oficiais.

Eram então deportados para Spinalonga, onde jamais recebiam tratamento.

O único médico designado para a ilha só era acionado para fazer a viagem de Plaka até ali se algum morador fosse acometido de outra doença.

O mais impressionante é que, apesar de tratamentos para a lepra terem sido descobertos em 1940, o governo grego manteve Spinalonga operacional até 1957.

Foi apenas depois de um especialista britânico visitar o local e preparar um relatório denunciando as autoridades gregas pelo descaso com os doentes que Atenas decidiu oficialmente desativar a colônia.

Em 2013, eu não consegui visitar a ilhota. Mas depois de ler o livro A Ilha, de Victoria Hislop, uma dramática história de segredos de família, traições e casos de amor ocorrendo na colônia de leprosos, decidi aprender como era a vida de verdade paras as pessoas exiladas em Spinalonga.

De longe, em meio às águas verdes de Mirabello, entre a passagem e outra de uma lancha veloz, Spinalonga é bonita. Mas assim que nossa barco aproximou-se da ilhota, a cidadela pairou sobre nós como uma nuvem negra.

Irmandade

Estava acompanhada de Maurice Born, etnólogo e coautor do livro Vidas e Mortes de um Cretense Leproso, escrito em parceria com Epaminondas Remoundakis, sobrevivente da colônia que lutou por melhor tratamento e melhores condições de vida para os moradores.

“A história de Spinalonga é a história de uma imensa mentira”, explicou Born enquanto cruzamos um túnel na cidadela conhecido como Portão de Dante.

Mesmo décadas após o fechamento da colonia de leprosos, em 1957, pouquíssimo se sabia sobre a ilha. O governo grego, disposto a apagar as pistas da existência da colônia, queimou todos os arquivos.

Sobreviventes de Spinalonga recusaram-se a falar sobre suas experiências. Por anos, foi como se a colônia jamais tivesse existido.

Porém, o livro de Hislop, publicado em 2005 – e que deu origem a uma serie de TV -, mudou tudo.

Como que de repente, pessoas começaram a falar sobre Spinalonga. Todo mundo era um especialista. E Atenas, feliz com o retrato favorável pintado pela narrativa romantizada da autora, permitiu que as pessoas falassem.

Surgiu daí uma história “gourmetizada” – e errada – da vida na colônia de leprosos.

‘Egoísmo’

Depois de cruzarmos o túnel, chegamos a uma rua com ruínas de casas venezianas e otomanas.

Born parou para mostrar o local onde um dia funcionou um bistrô administrado por leprosos. “O Estado grego queria destruir todas as evidências da colônia, mas na década de 1980 turistas começaram a aparecer com objetivo específico de visitar seus vestígios”, conta o etnólogo.

Um outro arco nos levou ao que um dia funcionou com um setor comercial, com lojas – algo que os leprosos foram autorizados a ter na década de 1930 -, um café e uma pequena escola. Um lado da rua foi restaurado com propósitos turísticos, com fachadas coloridas.

Não muito longe dali fica um prédio de pedra cavernoso em que ainda está o incinerador usado para queimar roupas infectadas.

À medida que caminhamos pelo vilarejo abandonado, Born continuou a revelar detalhes sobre a vida na colônia.

Antes dos anos 1930, os habitantes de Spinalonga viviam apenas pensando na sobrevivência individual, em um “estado de egoísmo”. “Ninguém cuidava um do outro, o padre local tinha dificuldades para encontrar ajudantes para enterrar os mortos.”

As coisas só mudaram com a chegada de Remoundakis, que formou a Irmandade de Spinalonga, uma sociedade dedicada a melhorar as condições de vida na ilha. E a fazer lobby junto ao governo grego.

“Antes da irmandade, tudo o que havia era comida, jogos de azar e raki (bebida típica grega, feita de uvas destiladas)”, disse Born.

Espelhos proibidos

A irmandade estabeleceu ordem e uma melhor qualidade de vida na ilhota. Houve até concertos feitos por moradores com habilidades musicais. Em um dos cafés podia-se também ouvir discos em uma vitrola doada aos habitantes de Spinalonga.

Entre as muitas regras estabelecidas pela irmandade, uma das mais importantes era a proibição de espelhos – ninguém queria ver o próprio reflexo.

Mas era impossível deixar de observar a destruição causada pela lepra em outros moradores.

“Era muito comum buscar a solidão para evitar os rostos uns dos outros”, completou Born.

Em 1938, os moradores receberam permissão para dinamitar partes da fortaleza medieval e criar uma trilha ao longo do perímetro da ilha, navegável mesmo por aqueles com a mobilidade debilitada pela doença.

A trilha deu aos exilados algo próximo de uma libertação.

Fizemos o percurso, e o sentimento de claustrofobia que tive no vilarejo desapareceu. Ventos fortes corriam pela trilha como prisioneiros libertados das algemas. Observei a incrível vista para a Baía de Mirabello e respirei o ar salgado vindo do mar.

Chegamos à solitária Igreja de São Jorge, construída há séculos pelos venezianos, nas proximidades de um pequeno cemitério.

“Quando turistas começaram a visitar a ilha nos anos 80, muitos depredaram os túmulos”, contou Born.

Em 2013, os restos mortais dos habitantes da colônia foram colocados em um ossário próximo ao cemitério, e cobertos com novas placas de concreto.

Na entrada do cemitério, uma placa pede respeito aos mortos.

Levou várias décadas para que sua historia fosse contada. Mas aqueles que nunca deixaram Spinalonga enfim encontraram paz.

Joias Nativas

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