Terra Sonâmbula no Teatro Cacilda Becker

Foto Miguel Proença

A Companhia portuguesa ESTE- Estação Teatral da Beira Interior apresenta de 12 a 15 de janeiro o espetáculo Terra Sonâmbula, de Mia Couto, no Teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro.  A peça, criada a partir do romance do renomado escritor moçambicano Mia Couto, será exibida pela primeira vez em palcos brasileiros. O espetáculo baseia-se no romance do autor, publicado em 1992, e é considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbábue.

Na trama, um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que acontece por toda parte, em Moçambique.  O veículo está cheio de corpos carbonizados, mas há também um outro corpo à beira da estrada junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto, em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. Assim começa o também o espetáculo “Terra Sonâmbula”, que busca transpor para o teatro os traços tão marcantes da essência, da forma de comunicação, da singularidade e da poética de Mia Couto, buscando ressaltar a profundidade de uma escrita tão característica do escritor.

O espetáculo é fruto do encontro do dramaturgo Nuno Pino Custódio e da atriz Rosinda Costa com Mia Couto, em Maputo. O convívio entre os três aflorou a vontade de estender o aclamado romance também para a linguagem teatral.

A narrativa teatral é expressa, principalmente, pela linguagem corporal/ gestual da atriz, Rosinda Costa, que conta também com o músico Alexandre Barata, que realiza a percussão durante toda a trama.

“O teatro precisa de se reinventar, sair de práticas que já não acompanham a evolução de uma sociedade que enfrenta fenômenos que, inclusivamente, lhe são contrários, paradoxais e o esvaziam de uma necessidade enquanto arte do espetáculo. Reprojetar esta necessidade implica conhecer este espectador novo, aquele que vive cada vez mais uma existência virtual, que sob as regras de um sistema capitalista neoliberal se depara com a sua própria desumanização ou que inclusive não compreende já a própria faculdade do amor.

Falo justamente de uma Terra Sonâmbula que todos vamos reconhecendo como um espaço habitado por olhos que não vêem e corações que não sentem.

Espaço único de transmissão, o teatro parece hoje estar a debater-se entre a possibilidade de se reafirmar como necessidade premente, profiláctica, absolutamente incontornável ou o perigo de se fechar enquanto lugar inerte onde só caberão nichos cada vez mais pequenos de espectadores e por fim cadeiras vazias. 

(…) parafraseando as palavras iniciais desta surpreendente e mágica narrativa de Mia Couto, antigo e novo vão justamente de mãos dadas, em lugar onde a guerra tinha morto até a estrada, vão bamboleantes, como se caminhar fosse o seu único serviço.”, – afirma o encenador e diretor artístico da Estação Teatral, Nuno Pino Custódio.

Companhia ESTE – Estação Teatral da Beira Interior
A ESTE – Estação Teatral da Beira Interior – é uma companhia sediada no Fundão que tem como objetivo nuclear a produção de espetáculos através de uma vocação artística e pedagógica que visa promover e fomentar a criação e formação de públicos. Desse modo, a sua atividade está fortemente vocacionada para a centralização do trabalho do ator, numa perspectiva de Teatro em Urgência, ou seja, de uma atividade pensada e preparada para acontecer em meios não-convencionais com um público não-convencional.

Esta vertente engloba, igualmente, uma forte natureza para a itinerância, fazendo com que o teatro vá verdadeiramente ao encontra das pessoas. Agilidade, flexibilidade, adaptação, polivalência e abrangência são, portanto, termos que caracterizam a atividade desta unidade. Do ponto de vista artístico, as suas criações estarão vocacionadas para o uso de ferramentas de trabalho que valorizem a expressão corporal, colocando o gesto e a palavra num mesmo plano. O teatro gestual, a pantomima, a Commedia dell´Arte, a Máscara, a improvisação, a criação coletiva, o teatro de sugestão são, por assim dizer, campos privilegiados de atuação, sem menosprezar o objeto texto ou a verbalidade, antes, na perspectiva da sua valorização. Num país e numa região com poucos hábitos culturais e artísticos, a ESTE trabalhará no sentido de tornar o teatro mais acessível para que este se possa tornar também uma realidade nos hábitos e no cotidiano das pessoas.

Ficha Técnica:
Texto original: Mia Couto
Dramaturgia e encenação: Nuno Pino Custódio em cocriação com Rosinda Costa, Alexandre Barata e Pedro Fino
Atriz: Rosinda Costa
Música e sonoplastia: Alexandre Barata
Assistência de encenação: Tiago Poiares
Assistência dramatúrgica: Roberto Querido
Espaço e figurinos: Estação Teatral
Desenho de luz e montagem: Pedro Fino
Direção de produção: Alexandre Barata
Vídeo: Luís Batista 
Fotografia: Miguel Proença 
Design de comunicação: Hugo Landeiro Domingues
Produção Executiva (Brasil): Carla Strachmann
Coprodução (Brasil): ECOAR

Terra Sonâmbula
Teatro Cacilda Becker: Rua do Catete, 338 – Catete
Telefone(21) 2265-9933
Data: de 12 a 15/01/17. Quinta a domingo, às 20h.
Tempo de duração: 60 minutos.
Valor: R$20, a inteira.
Classificação: 12 anos.

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